Difícil, desconcertante, desafiadora: assim é a Pinot Noir

Ah, Pinot Noir… Difícil, desconcertante, desafiadora, entre tantos outros 1001 adjetivos. Eis uma uva com grandes admiradores ao redor do mundo, e todos certamente com ótimos motivos para isso.

 

Carinhosamente conhecida por muitos como ‘Pinot’, é tradução literal do francês ‘pinha negra’, graças ao formato de seus cachos e cor de sua casca. Apesar disso, é sabido que ela concentra pouca quantidade de pigmentos e material colorante na pele, o que, na maioria dos casos, origina vinhos de aspecto claro, translúcido, às vezes quase rosado. Isso colabora para a sua reputação de uma uva responsável por exemplares bastante macios, sutis, com taninos aveludados e super delicados.

 

Com casca fina e rápida maturação, diferentemente de muitas outras uvas tintas, ela rende vinhos de sabores muito particulares (com destaque para morangos, cerejas, temperos, e flores, como violetas e rosas). Outros fatores são importantes para a definição de sua personalidade, e ela sofre intensas transformações em função do terroir, das condições microclimáticas e topográficas, e das técnicas de vinificação. Tudo isso gera discussões constantes e exponenciais sobre qual é seu ‘verdadeiro’ estilo.

 

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Os cachos pequenos de cor violeta profundo com bagos redondos e delicados pedem um clima equilibrado. Entre secura e umidade, calor e frio, Sol e frescor, seu ponto ótimo de amadurecimento é exigente, o que dificulta seu cultivo. O excesso de frio, por exemplo, pode originar vinhos pobres e de sabores apagados, ou com acidez em excesso. Já o intenso clima quente provoca expressões acentuadas de geleias e tostados, mas pode fazer com que a uva “passe do ponto” antes da hora. Em resumo: temperamental, a Pinot é uma uva muito, muito difícil de ser manuseada. Apesar disso, e por isso, quando vinificada com maestria, demonstra uma complexidade única, com sua sutilieza e riqueza de aromas encantando dos paladares leigos aos mais exigentes ao redor do mundo.

 

Nascida na França há mais de 2 mil anos, a espécie tem seu berço na célebre região da Borgonha, localizada ao sul de Champagne e a norte do Vale do Rhône. E é exatamente lá que tem suas melhores expressões. Por ser uma cepa super antiga e com muita história, ela foi a responsável pelo nascimento de uma família inteira de uvas, como Pinot Gris (Grigio na Itália) e Pinot Blanc. Além disso, acredite se quiser, estudos recentes comprovaram que ela também está presente da árvore genealógica de 16 outras espécies, como Chardonnay, Malbec, Melon de Bourgogne (ou Muscadet) e Gamay. No entanto, foi só na década de 1990 que ela começou a ser cultivada em outras partes do mundo que não a sua terra-natal, como a Nova Zelândia e a Califórnia. Hoje a Pinot Noir está presente em, aproximadamente, 117.000 hectares de vinhedos espalhados pelo mundo, sendo que 31.000 deles estão na França.

 

Uma das castas que protagonizam estudos nos dias atuais, ela carrega a fama não só pelos rótulos do Velho Mundo com capacidade incrível de guarda, como pela presença cada vez mais forte em produções de excelência em todos os continentes. Na Borgonha, um Pinot de status Grand Cru, por exemplo, é vendido a preços astronômicos, como é o caso do Gevrey-Chambertin e Romanée-Conti. Pois bem, estes são alguns dos vinhos mais caros do mundo, mas não sem motivo. São bebidas de grande longevidade – se forem bem armazenados, pode pensar em algo como 20 anos de envelhecimento, tranquilamente. Já no hemisfério sul, embora a casta seja naturalmente mais cara (dadas as suas dificuldades no manuseio), um ‘Pinot’ tende a ser mais acessível, e costuma ser elaborado em regiões bem frias.

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Para se ter uma noção de sua popularidade, no ano de 2004, quando o filme ‘Sideways – Entre Umas e Outras’ foi lançado, vinhos que tinham em sua composição a Pinot Noir eram os mais procurados em todo o mundo! É isso mesmo. As vendas aumentaram (e muito) graças à verdadeira paixão que o personagem Miles Raymond tinha por esta uva. Como ele mesmo disse, “a Pinot precisa de atenção e cuidado constantes. Na verdade, ela só cresce em lugares bem pequenos, específicos, em alguns cantos do mundo. Só o mais paciente e carinhoso dos produtores consegue cultivá-la. Apenas quem realmente pega um tempo para tentar entender o verdadeiro potencial da Pinot pode persuadi-la a alcançar sua máxima expressão. E aí, ah, seus sabores… são os mais assombrosos, e brilhantes, e emocionantes, e sutis… e antigos do planeta.”

 

Após séculos de tradição, consagração e reconhecimento por suas produções na Borgonha, hoje ela também é lembrada pelos belíssimos rótulos produzidos no Chile, na Califórnia e na África do Sul. É preciso reconhecer seu estilo para providenciar uma ocasião e uma harmonização à altura. E, falando nisso, saiba de antemão que estamos lidando com uma casta extremamente complexa, mas que apesar disso, é uma das mais fáceis de harmonizar. Invista em cortes magros de carnes, mas se a safra for antiga, aposte nas carnes vermelhas e gordurosas. Risotos, massas, queijos (Gruyère, principalmente) e até mesmo frutos do mar encontram uma boa parceira na Pinot.
Seja como for, carne ou massa, só ou acompanhado, em casa ou numa festa, arriscamos dizer que a experiência de apreciar um legítimo Pinot Noir será para você tão fascinante quanto cada uma das nuances, notas e minúcias encontradas em seus goles