Moscatel: muito mais do que espumante!

Quando ouvimos falar em Moscatel, a primeira coisa que nos vem à cabeça é um espumante docinho e bem aromático. Mas será que é só isso mesmo? A resposta é: não! Definitivamente há muito mais para explorarmos. Confira:

A FAMÍLIA MOSCATEL

Moscatel é o nome usado para designar um grupo de uvas, e não uma única variedade. Moscato, Muscat e Moscatel são a mesma coisa – na verdade, são apenas variantes linguísticas: Brasil, Portugal e Espanha usam a palavra Moscatel; na Itália falam Moscato; no inglês e no francês é Muscat. 

A família dos Moscatéis é composta tanto por uvas tintas como brancas e rosadas. Existem mais de 200 castas nesse conjunto, entre essas, as mais comuns são: 

Moscatel Branco (ou Muscat à Petits Grains): produz vinhos vibrantes, com alto teor de acidez e notas que vão de pêssego a  flor de laranjeira. Ela é uma das mais prestigiadas entre as Moscatéis, e também é progenitora de aproximadamente 14 outras variedades da família.

Moscatel de Alexandria (ou Moscatel de Setúbal): é  provavelmente resultado de um cruzamento natural entre a Muscat à Petits Grains e a Axina de Tres Bias, uma antiga variedade tinta do Mediterrâneo. Essa variedade possui intensos aromas florais, como rosa e jasmim, e de frutas de caroço.

Moscatel Ottonel: cruzamento entre as uvas Chassellas e Muscat d’Eisenstadt. É uma variedade com menos intensidade de aroma e acidez do que muitos Moscatéis, sendo a opção ideal para o cultivo em lugares de clima mais frio e para a produção de vinhos secos.

Moscatel de Hamburgo (ou Black Muscat): uma das poucas variedades tintas dessa família, a Black Muscat é uma uva de mesa – aquelas destinadas ao consumo in natura – que também é utilizada para produção de vinho.

A família Moscatel têm uma coisa em comum: todas são muito aromáticas. E o que  chama atenção, é uma característica muito particular dessa variedade: os vinhos apresentam perfume de uva mesmo. 

O componente responsável por esse aroma chama-se linalool, prevalente nos óleos essenciais de várias espécies de plantas aromáticas. O nome Moscatel, em inglês Muscat, deriva de musky (almíscar), uma classe de substâncias aromáticas. 

As uvas da família Moscatel se adaptam bem a lugares de clima quente, mas podem se beneficiar em lugares com ventos ou influência de corpos d’água (mares ou rios), que criam um efeito de arrefecimento, ajudam a refrescar a vinha e a preservar a acidez da uva. 

Acima temos da esquerda para a direita as uvas: Moscatel de Hamburgo, Moscatel de Alexandria e Moscatel Branco.

IMPORTANTE: Não confundir Moscatel com Muscadet e Muscadelle. Muscadet Sèvre et Maine é uma Denominação de Origem do Vale do Loire, na França, que produz vinhos brancos secos elaborados com a casta Melon de Bourgogne; já Muscadelle é uma variedade de uva branca encontrada também na França, na região de Bordeaux, comumente utilizada em cortes junto com outras duas uvas da região, como as brancas Sémillon e  Sauvignon Blanc.

ESTILOS DE MOSCATEL

Bom, esclarecidas as dúvidas sobre o que é ou não Moscatel, vamos falar agora dos estilos de vinho que podemos encontrar com essas variedades. 

Quando falamos da produção de vinho, vale lembrar que quem decide o que será feito com a uva é o produtor. Mesmo existindo as regras de diferentes Denominações de Origem, se alguém localizado nessa demarcação quiser fazer um vinho diferente, ele pode! Obviamente, ao sair das regras determinadas, o vinho será classificado de forma diferente, ou seja, sem o nome da denominação. Além de decidir se o vinho vai ser tinto, branco ou rosé, o produtor escolhe em qual estilo será feito:

  • Tranquilo: a maioria dos vinhos se enquadram nesta categoria. São vinhos que não contém gás – não são efervescentes – e possuem entre 8% a 15% vol. alc. É o vinho em que normalmente pensamos ao pensar no assunto.

 

  • Espumante: são os vinhos borbulhantes ou efervescentes; essas bolhas são criadas pelo dióxido de carbono (CO2) resultante do processo de fermentação que fica retido no vinho.

 

  • Fortificado: são vinhos aos quais lhes foi adicionado álcool extra; o resultado é um vinho que pode ter de 15% a 22% vol. alc. São vinhos que costumam ter um grande potencial de guarda, pois o álcool funciona tanto como agente conservante como antiséptico. 

 

Dito isso, você pode encontrar vinhos Moscatel em todos esses estilos! Cada país tem sua forma de elaborar, sua identidade. Mas vamos falar dos estilos de Moscatel, começando pelo mais conhecido:

MOSCATEL, VERSÃO ESPUMANTE

Entre os estilos, o mais famoso é o espumante Moscatel! Muito aromático, com notas de pêssego, manga, lichia e flores brancas, fácil beber, é uma variedade que já enche a boca d’água só de pensar! 

Seja para celebrar ou para relaxar o espumante de Moscatel é o favorito de muitos. Inclusive, o Brasil é reconhecido internacionalmente por seus espumantes, entre eles os feitos com a uva Moscatel.

Existem diferentes formas para se obter as preciosas bolhas do vinho. Para entender a diferença vamos falar rapidamente de algumas:

  • Método Tradicional/ Champenoise: neste processo realiza-se 2 fermentações, sendo que 2ª ocorra dentro própria garrafa. Esse é o método utilizado para produção de Champagne.

 

  • Método Charmat/ Tanque: este método é muito similar ao tradicional, porém, a 2ª fermentação é feita em um tanque de inox. O Prosecco, espumante italiano elaborado com a uva Glera, é feito dessa forma.

 

  • Método Asti: este é o método mais comum de se produzir o espumante Moscatel, é o que mais se difere dos anteriores. Aqui temos apenas uma fermentação alcoólica. O mosto da uva é colocado em um tanque inox pressurizado. Conforme a fermentação acontece, o CO2 fica retido no tanque selado, gerando as bolhas. Ao atingir uma graduação alcoólica entre 6% e 10% vol. alc., a temperatura é bruscamente baixada para que a fermentação seja interrompida. O resultado é o espumante que conhecemos, com baixa graduação alcoólica, açúcar residual (por conta da interrupção da fermentação) e aromas intensos de frutas como pêssego, nectarina, melão, lichia e flores.

Esse é o método utilizado na produção de vinhos espumantes doce na região de Asti, no Piemonte, noroeste da Itália. É isso aí, a mesma região de onde vem os famosos vinhos Barolo e Barbaresco! Na região, os vinhos produzidos são chamados de Asti DOCG. Nessa mesma região é produzido um vinho frisante (com borbulhas muito sutís) que recebe o status de Moscato d’Asti DOCG. É um vinho meio doce, com uma graduação alcoólica relativamente baixa, cerca de 5,5%.

Só de falar dá vontade de pegar uma taça, né? Não seja por isso; sugerimos o Espumante Alísio Moscatel, produzido no Vale do Rio São Francisco, Bahia. Feito pela tradicional vinícola Miolo, este espumante é uma grande oportunidade de provar o melhor que o Brasil oferece nesta região.

*Sujeito a alteração de estoque

A MOSCATEL E OS VINHOS FORTIFICADOS

Quando falamos em  fortificados, o Vinho do Porto é um dos primeiros que nos vem como referência. Pois bem, esse é apenas um dos vários vinhos fortificados que encontramos: podem ser tanto secos como doces, sendo mais comum encontrar versões doces. 

Em Portugal, são produzidos dois fortificados famosos com a Moscatel: o Moscatel de Setúbal e o Moscatel do Douro. Ambos devem conter ao menos 85% de Moscatel, atingir um mínimo de 16% vol. alc. e passar por um envelhecimento mínimo de 18 meses em barris de carvalho.

O Moscatel de Setúbal é uma Denominação de Origem Protegida (DOP)  localizada mais ao sul do país. Nela, os vinhos são elaborados com a casta Moscatel de Alexandria, originando rótulos da  cor dourada, com notas de figo seco, tâmaras, marmelada, caju torrado e  compota de damasco. 

A fama do Moscatel de Setúbal, além-fronteiras, teria começado na segunda metade do século XIV, quando Ricardo II da Inglaterra se tornou um importador e consumidor assíduo de Moscatel de Setúbal. Durante o reinado de Luís XIV, o prestígio só aumentou.

Já o Douro é uma região mais ao norte, e é de lá que vem o Vinho do Porto e também o Moscatel do Douro, outra Denominação de Origem Protegida.  Nela, os  vinhos são elaborados com a Moscatel Branco. 

As videiras podem ser encontradas por toda a região demarcada do Douro, mas particularmente em torno das cidades de Alijó e Favaios, a maioria dos Moscatel do Douro DOP vêm de Favaios. Nessa versão, a Moscatel costuma apresentar aromas florais, cítricos, de casca de laranja, damasco e manteiga.

VOCÊ SABIA? 

Não muito distante de Portugal, na Espanha, nos deparamos com outro tipo de fortificado: o Jerez (Sherry no inglês). Produzido na cidade de Jerez de la Frontera, aqui a maioria dos vinhos fortificados são secos, os doces são mais difíceis de encontrar. Os vinhos doces costumam ser feitos com a uva Pedro Ximénez, e a Moscatel de Alexandria é utilizada para adicionar aromas e dulçor nesses vinhos.

Na França, os vinhos fortificados são chamados de Vin Doux Naturel (Vinho Doce Natural). Na parte sul do Vale do Rhône, é produzido o Muscat de Beaumes de Venise. As uvas são colhidas maduras, esmagadas e o suco é separado das peles; a fermentação acontece a baixas temperaturas e é interrompida com a adição de aguardente vínica 96% vol. alc. 

Esses vinhos têm tonalidade mais amarelada, já que as uvas são colhidas tardiamente, e apresentam notas intensas de casca de fruta cítrica cristalizada. São considerados vinhos de sobremesa, mas sem serem muito melados em boca. 

Saindo do Rhône e indo mais para o sul da França, na região de Languedoc-Roussillon, encontramos mais dois vinhos da família: o Muscat de Frontignan, no  Languedoc, elaborado apenas com a Moscatel Branco, e o Muscat de Rivesaltes, no Roussillon, elaborado com a Moscatel Branco e a Moscatel de Alexandria; este último é um vinho de textura untuosa, com notas de madressilva, pêssego e mel. 

E tem Moscatel também na Grécia. Lá  é produzido o Muscat de Samos, que pode variar entre quatro tipos: Samos, Samos Vin Doux, Samos Anthemis e Samos Nectar. A ordem é do menos doce para o com maior nível de açúcar residual. 

Samos é uma ilha localizada no Mar Egeu e também é uma Denominação de Origem, a Moscatel Branco domina as plantações da região. Apesar de serem bem conceituados, dificilmente chegam no Brasil. A coloração muda conforme o tempo em madeira e a idade do vinho: os mais jovens são amarelados e conforme envelhecem mudam para âmbar. No nariz é possível sentir notas cítricas, de mel de laranjeira e macadâmias.

Outro país a ser mencionado é a Austrália, na região de Rutherglen, que também é produz um fortificado de Moscatel. O vinho australiano possui cor âmbar ou castanho, e vão de doces a muito doces! 

As uvas são colhidas bem maduras e ainda são colocadas para secar, assim conforme a concentração de açúcar aumenta conforme os frutos perdem água.. Esse processo é chamado de passificação, e serve para adicionar complexidade de aromas e sabores. Geralmente a fermentação acontece em contato com as peles da uva e, depois de fermentados, o vinho passa por um envelhecimento oxidativo (em contato com oxigênio) em grandes barris de carvalho por quase 20 anos.

Por último, mas não menos importante:

VINHOS TRANQUILOS DE MOSCATEL

Chegamos à categoria de vinhos a qual estamos mais acostumados: os vinhos tranquilos (sem gás e nem adição de destilado). Apesar de ser o estilo mais comum, dificilmente pensamos em vinhos tranquilos feitos com Moscatel. 

A região da Alsácia, no nordeste da França, produz vinhos de Moscatel tanto doces como secos. Inclusive, a Moscatel (chamada de Muscat) está entre as 4 castas nobres da região, juntamente com Riesling, Pinot Gris e Gewurztraminer. São uvas consideradas nobres por serem as  únicas autorizadas para a maioria dos vinhos Grand Cru da região (vinhedos que possuem localização privilegiada, com os melhores solos e melhor exposição solar).

Aqui a maioria dos vinhos secos é feito com a Muscat à Petit Grains e a Muscat Ottonel. A  fermentação ocorre em cubas de aço inox ou em grandes tonéis neutros de carvalho, para preservar as características de aroma da uva. 

Para os vinhos com potencial de envelhecimento, a fermentação é mais longa e, ocasionalmente, com sur-lie – significa “sobre as lias”, ou seja, depois da fermentação as leveduras morrem e ficam no recipiente; esse contato ajuda a criar textura e complexidade de aromas. Os vinhos com status de Grand Cru possuem um bom potencial de guarda podendo chegar até 10 anos; conforme envelhecem adquirem aromas de frutas secas e amêndoas.

Os vinhos doces da Alsácia são de colheita tardia. São dois tipos o Vendanges Tardives (Colheita Tardia) e o Sélections de Grains Nobles (Seleção de Grãos Nobres), ambos têm as uvas colhidas manualmente, a diferença é que a seleção de grãos nobres deve ser afetada pela chamada podridão nobre – um fungo que deixa a pele da uva fina, gerando perda de água nos bagos, o que resulta em concentração de açúcar e aromas. –

Além disso, como o nome já diz, a colheita é uma seleção de grãos, dos bagos, e não do cacho. Por conta da dificuldade em controlar esse fungo e dos baixos rendimentos, este estilo de vinho costuma ser difícil de encontrar e os preços podem ser bem altos.

Outro Moscatel seco que vale a pena conhecer é Muskateller, da Áustria. Os vinhos costumam ser secos ao paladar, mas como os aromas são tão doces e frutados, seu cérebro o leva a pensar que são doces. Eles são fantásticos, especialmente se você estiver contando carboidratos.

VAMOS FALAR DE HARMONIZAÇÕES?

Se você se perguntou em qual momento deve beber um Moscatel, a resposta é simples: pela variedade de estilos, você encontra um para cada momento! Se quiser harmonizar com um prato, as possibilidades são enormes. Aqui vai algumas sugestões:

O Moscatel tranquilo seco pode acompanhar refeições, em especial pratos de carne branca como frango ou peixe temperados com ervas;  terrines, quiches e queijos de massa mole, como o de cabra; ostras frescas, frutos do mar e até comida japonesa (em especial os sushis e sashimis).

Já o Moscatel tranquilo doce é ideal para acompanhar pratos condimentados como comida mexicana, tailandesa, chinesa e alguns pratos indianos. Pensando na nossa gastronomia, podemos harmonizar com bobó de camarão.

Quando falamos de sobremesa, o céu é o limite! O espumante Moscatel fica muito bom acompanhando frutas frescas, mousse de maracujá ou merengue de morangos. O Moscatel de Setúbal combina com sobremesas a base de chocolate, mas também acompanha perfeitamente queijos pegajosos como o de ovelha. O Jerez doce costuma ir bem com doces à base de castanhas e caramelo.

Agora é com você para experimentar e ver qual das combinações você mais gosta! Por fim, deixamos uma dica de drink para você se apaixonar ainda mais por Moscatel.

DRINK COM MOSCATEL

Moscatel Moscow Mule

Ingredientes

  • 1 xícara de água
  • 1 xícara de açúcar mascavo
  • 1 canela em pau
  • 1 colher de sopa de gengibre picado
  • 1 dose de vodka
  • Suco de ½ limão
  • Gelo batido
  • Espumante Moscatel para completar a caneca
  • Rodelas de limão para decorar
  • Hortelã para decorar

Instruções

  1. Em uma panela, dispor a água, o açúcar mascavo, a canela em pau e o gengibre.
  2. Deixar ferver até reduzir pela metade e coar. Deixar esfriar.
  3. Em uma caneca, misturar a vodka, o suco de limão e uma dose do xarope de gengibre e canela.
  4. Colocar gelo batido, completar a caneca com a espumante Moscatel.
  5. Finalizar com mais gelo e decorar com rodelas de limão e hortelã.

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