Dia Internacional da Mulher: as mulheres no mundo do vinho e um bate-papo com a produtora Erika Goulart

As mulheres mostram sua força todos os dias, mas no dia 8 de março é celebrado, anual e mundialmente, o Dia Internacional da Mulher. Essa é uma data que reforça a importância da mulher na sociedade e toda a história que está por trás de seus direitos conquistados – e dos que ainda estão por vir com sua luta diária.

Em meio aos presentes e debates que rodeiam esse dia, estamos aqui para mostrar que se engana quem pensa que as mulheres não marcam presença no mundo do vinho! Hoje você vai conhecer histórias inspiradoras de algumas mulheres importantes do ramo. Vamos lá?! 😉

História da mulher no mundo do vinho

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Além do prazer em degustar a bebida, as mulheres estão envolvidas com a produção de vinho e invenção de técnicas vitivinícolas – isso não é de hoje. Há gravuras do Egito Antigo que mostram, por exemplo, mulheres trabalhando nos vinhedos. Naquele contexto, era tudo feito de maneira igualitária e nada sexista.

Foi na cultura greco-romana que as restrições aos direitos das mulheres passaram a aparecer com bastante força. Com a mistura de culturas, essa ideologia se espalhou e fez com que o universo do vinho, assim como tantas outras áreas, fosse dominado pelos homens. 

Viúvas empreendedoras

Ainda que em um contexto desfavorável e com papel limitado à vida doméstica, as mulheres mostraram sua força e resiliência. É o caso de viúvas que encararam a adversidade como oportunidade para empreender e brilhar no mundo do vinho. 

Viúva Clicquot: A Grande Dama de Champagne

Veuve Clicquot é como ficou conhecida Barbe-Nicole Clicquot Ponsardin que, ao lado de seu marido, criou a marca de champanhe mais conhecida do mundo, atualmente e naquela época. Tinha 27 anos quando ficou viúva (veuve, em francês) e se tornou a maior empreendedora do setor na época.

Em 1826, as primeiras garrafas de Veuve Clicquot chegaram ao Brasil, encomendadas por uma carta escrita de próprio punho pelo próprio imperador D. Pedro I. 

Viúva Clicquot inventou o método remuage para a separação dos sedimentos, baseado na rotação das garrafas. Ela também criou os espumantes rosé e vintage, e se mostrou praticamente uma “relações públicas” da época. Isso porque escreveu mais de 100 mil cartas, que estão arquivadas no Pavillon du Patrimoine Historique, em Reims.

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Madame Pommery e o Espumante Brut

Mais uma estrela da região de Champagne, depois de ficar viúva a Madame Pommery mudou o foco de sua empresa, foi de vinho tinto para espumante branco. Ao estudar em Londres, percebeu que os ingleses gostavam de bebidas menos doces. Sendo assim, em 1834 criou o primeiro Espumante Brut, que conquistou não só o mercado inglês, mas o mundo todo. 

Visionária, Madame Pommery percebeu que podia também conquistar os consumidores através do design das garrafas e dos rótulos, além de movimentar o turismo local. Construiu um castelo em meio ao vinhedo em Reims, onde até hoje é possível visitar as crayères do castelo, usadas para armazenar vinhos. 

Madame Bollinger

Viúva aos 42 anos, Lily Bollinger comandou a vinícola da família durante a ocupação nazista na França, em plena Segunda Guerra Mundial. Sob sua liderança, a Bollinger Champagne prosperou e dobrou de tamanho. Carismática, andava de bicicleta pelos vinhedos e era muito amada em Champagne.

“Só bebo Champagne quando estou feliz e quando estou triste. Às vezes, bebo quando estou sozinha. Quando estou em companhia, considero obrigatório. Bebo um golinho se não estou com fome e bebo quando estou com fome. Caso contrário nunca toco nele, a não ser que esteja com sede.”
Madame Bollinger

Françoise-Josephine e a doçura do Château d’Yquem

Françoise-Josephine de Sauvage d’Yquem usou a doçura do Château d’Yquem, hoje a casa do vinho doce mais caro do mundo, para aliviar o sofrimento causado por muitas perdas. Viúva aos 20, ficou sozinha em plena Revolução Francesa, chegou a ser presa e viu morrer vários entes queridos.

Empreendedora, construiu uma adega para envelhecer os vinhos no próprio local, enquanto os comerciantes da época mandavam a bebida por rio para Bordeaux. Outra grande contribuição foi a ideia de colher somente as uvas já botritizadas (atacadas por fungos que as deixam com menos água e mais açúcar), elevando a qualidade da bebida.

Madame Veuve

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Filha de viticultores e agricultores, Jeanne Marie Point (Madame Veuve) começou a aprender sobre vinhos desde cedo, observando seus pais e os ajudando nas vinhas da família no final do século XIX, na França. Mãe aos 22 anos e viúva aos 26, Jeanne não era aceita pelos viticultores locais, mas isso não a impediu de seguir com seu trabalho, consagrado até os dias de hoje nos rótulos que levam o nome Madame Veuve.

Ferreirinha e o vinho do Porto

Antónia Adelaide Ferreira, a Ferreirinha, nunca se acomodou com a vida confortável de uma família rica. Pelo contrário, lutava contra os governos portugueses que, em vez de incentivarem a produção do país, compravam vinhos espanhóis e investiam em estradas. 

Ficou viúva aos 32 anos, mas casou-se de novo e manteve os negócios da família. Ligada ao ramo do vinho do Porto, tornou-se a pessoa mais respeitada do Alto Douro no século XIX. 

Cada dia mais mulheres no mundo do vinho

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É fácil perceber que, ao longo dos anos, há cada vez mais mulheres presentes nas diversas etapas que estão por trás dos rótulos que consumimos, desde as posições de liderança nas vinícolas e até mesmo atuando como enólogas ou sommelières – o que abre muitas portas para todas que desejam seguir pelo mesmo caminho.

É o caso da Maria Luz Marin, primeira enóloga do Chile, que produz maravilhosos vinhos chilenos em San Antonio, um terroir até então desacreditado. Também Susana Balbo, da Argentina, que consagrou o hoje tão procurado Malbec de Mendoza. Na Toscana, Donatella Cinelli fundou o Casato Prime Donne, uma vinícola de Brunellos onde a mão-de-obra é totalmente feminina. 

A inglesa Jancis Robinson foi a primeira mulher a obter o importante título de Master of Wine, no ano de 1984. Disposta a compartilhar todo o seu conhecimento, Jancis possui uma série de avaliações, livros e artigos sobre vinho, desde os mais básicos até os mais técnicos, que envolvem harmonização, territórios de cultivos, entre outros assuntos.  

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Erika Goulart

Uma outra trajetória, da qual não poderíamos deixar de falar nesse artigo, é da brasileira Erika Goulart, proprietária da Vinícola Goulart. A Erika tem uma parceria estabelecida com a Evino e ela mesma contou um pouco sobre a sua jornada em uma entrevista exclusiva. Confira:

Entrevista com a produtora Erika Goulart

Evino: Como começou a sua história com o vinho? 

Erika Goulart: Minha história com o vinho começou quando eu descobri que meu avô tinha sido exilado na época da Revolução de 1932 na Argentina, mais precisamente em Mendoza. Lá, ele tinha comprado um vinhedo de Malbec plantado em 1915. Cheguei em Mendoza e negociei o vinhedo com as pessoas que viviam lá. Em 1997 me instalei definitivamente e comecei aprender sobre vitivinicultura.

*Erika Goulart nos vinhedos da Vinícola Goulart. Arquivo pessoal.

*Erika Goulart nos vinhedos da Vinícola Goulart. Arquivo pessoal.

Evino:  Quais foram suas dificuldades no ramo?

Erika Goulart: A primeira dificuldade foi o idioma, eu não falava espanhol, as seguintes basicamente foram o fato de ser mulher e estrangeira. Quando comecei éramos muito poucas pessoas e sem dúvida a indústria vitivinícola é masculina. Eles não acreditam que podemos estar sujas, trabalhando muitas horas, em um clima extremo com temperaturas muito altas ou baixas. Também tive a dificuldade de armar a equipe e conduzi-la. 

Evino: Em Mendoza, a Vinícola Goulart é conhecida como “Bodega de la Brasilera”. Qual a sensação de ser dona e líder de uma vinícola em outro país?

Erika Goulart: Assim que comecei nessa indústria aprendi que primeiro havia que conseguir prestígio. A Goulart possui prestígio mundial e isso me dá muito orgulho e prazer.

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*Vinhedos da Vinícola Goulart. Arquivo pessoal.

Evino: Você acredita que existe um “vinho ideal para mulher”?

Erika Goulart:  Não acredito que exista um vinho ideal para mulheres, dado que o paladar é único em cada pessoa. Acho sim, que existe um vinho ideal para cada momento e as mulheres sabem muito bem escolher.

Evino: Gostaríamos que deixasse uma mensagem ou uma dica para todas as mulheres que se interessam pelo universo do vinho e desejam ingressar nessa área.

Erika Goulart: O vinho é um alimento, uma bebida fermentada, que faz muito bem à saúde. Com o vinho você pode viajar sem sair de casa; você descobre aromas, estilos, regiões e essa experiência diária é fundamental para nós mulheres que adoramos descobrir todos os dias algo novo.

Curtiu a entrevista? Conta aqui para gente que adoraremos saber! 😉

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